Capítulo 1
"Naquele instante pensei que o coração me saltaria do peito. O teu olhar emocionava-me, transmitia-me a paz que eu precisava"
Tocaram á campainha. Abri a porta, meio ensonado e com dúvidas sobre quem poderia estar a incomodar-me áquelas horas. Do departamento não deveria ser ninguém pois geralmente ligavam-me para o telemovel e só em último caso é que iriam a minha casa.
Abri a porta e do outro lado estava uma menina loira e não aparentava ter mais de cinco anos de idade. Trazia um vestido cor de rosa e um pequeno casaco branco. Tinha os seus lindos caracóis presos com um gancho para que pudesse ver sem ser incomodada. Trazia numa mão uma pequena mochila amarela e na outra um peluche creme que, á primeira vista, me parecera bastante familiar. Agarrei-a ao colo e sentei-a no meu sofá. Não refilou, o que me fez pensar que estaria á espera de que eu reagisse daquela forma. Puxei o cobertor e cobri os seus frágeis joelhos. Manteve-se imóvel sem me dirigir uma única palavra. Perguntei-lhe:
- Querida o que se passa?
Respondeu-me enquanto uma grossa lágrima se formava no seu olho direito, teimando em não escorregar por aquele delicado rosto:
- És o Pedro? A minha mãe disse-me o teu nome e a tua namorada antes de morrer...A minha missão era procurar-te e pedir-te ajuda.
Fiquei chocado e ao mesmo tempo preocupado. Recordava-me da existência daquele peluche (e tendo em conta a minha fraca memória, não restavam dúvidas de que ele tinha marcado uma fase importante da minha existência) mas não entendia o porquê. E aquela criança estava a despedaçar-me o coração. O que mais me preocupava era ela ser tão pequena e apresentar tamanha maturidade!
- Sim sou o Pedro. Quem era a tua mãe?
- Era a Lúcia. Ela foi tua colega na PJ. Deste-lhe o peluche no dia em que a direcção te afastou das investigações.
Meu Deus como poderia não me lembrar?! Eu amava aquela mulher. Sempre a tinha amado e por isso apesar de ter a Rita a meu lado, nunca a tinha pedido em casamento, visto que a única vez em que me tinha sentido preparado, tinha sido exactamente aquando do meu relacionamento com Lúcia.
- Meu amor já me recordo...Olha pareces-me cansada e a estas horas as meninas da tua idade já devem estar todas a dormir. Esta noite ficas aqui e amanhã logo conversamos.
Não me respondeu o que me levou a concluir que aceitava a minha "ordem". Enquanto preparei o quarto de hóspedes, que raramente era usado, ela adormeceu ali mesmo no meu sofá. Peguei-lhe ao colo e deitei-a na cama acabada de fazer. Enrosquei-me ao lado dela e acabei por adormecer. Pela primeira vez senti o meu instinto paternal a crescer dentro de mim. Ali ficámos, dois desconhecidos ansiosos por um abraço verdadeiro.
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